"Todas as coisas complexas estão condenadas à decadência." (Buda)

"Evoluir não é melhorar. A lagarta jura que a borboleta é a sua decadência." (Fabrício Carpinejar)

Pesquisar neste blog ou na Web

MINHAS PÉROLAS

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

PERGUNTAS DE ALUNOS "ESPECIAIS" (Alunos "especiais" nos depreciam?)




CRÔNICA

PERGUNTAS DE ALUNOS "ESPECIAIS" (Alunos "especiais" nos depreciam?)

Por Claudeci Ferreira de Andrade


         Nós que conhecemos o problema entre o interesse exagerado da escola em oferecer ao aluno uma vaga, a ponto de ir buscá-lo em casa, e a falta de confiança, da população, em tudo que vem de graça, não temos dúvidas quanto ao motivo da decadência do sistema educacional público. Sabemos também que este problema é sem solução, e é melhor para os governantes sem preparo dominarem um sem instrução do que a um acadêmico bem instruído.
         Quando eu estava lecionando para os adultos da EJA, pude observar incorporação inadequada do espírito de adolescente, forçando um comportamento incoerente para tal proposta educacional. Como se não bastasse a dificuldade de assimilação dos conteúdos, eles ainda se empenhavam em chamar a minha atenção com brincadeiras descabidas, daquelas que geram desordem na sala, e perguntas idiotas:  "Professor por que o senhor não ficou em casa? É para copiar?" "É para entregar ou deixar no caderno?" "Quantos pontos vale esta tarefa?" "Você pode me emprestar seu livro respondido, professor?" "Que vou fazer agora se não vim ontem?" "É para saltar linha e quantas linhas devo deixar para a resposta?" "Faltou algum professor hoje?" "Hoje, vai ter lanche?" "Quantas hora, agora?" "Vamos sair mais cedo?" Perguntas deveras embaraçosas que não caberiam no repertório de quem pretende ser universitário. Nenhum deles é desconhecedor do valor do saber e da necessidade urgente de ocupar um espaço na sociedade letrada. Essas perguntas também eram embaraçosas em vista da deseducação que ameaçava tirar o entusiasmo dos poucos que estavam tentando aprender alguma coisa, entre todos os quantos se achavam na sala de aula. Imaginem a atitude de uma coordenadora pedagógica que perguntasse ao tal professor, assim, esperançoso: "Você acredita que estes alunos da EJA chegarão à universidade?" Eu a responderia que não.
        Olhando para aqueles alunos Adultos que não tiveram infância, agora fora de sua idade normal para as séries normais, agressivos, sempre armados contra o professor, maltratavam-me operando sua vingança como se eu fosse culpado dos bloqueios deles. Então me perguntava o que fizeram eles na escola quando criança e adolescente?
         Agora continuo me perguntando :Por causa de que veio à escola e por que só agora? Há um tipo de aluno na EJA, hoje em dia, que deseja saber por que as escolas estão perturbadas, e por que há muitas brigas, desavenças, desrespeito, indisciplina e brincadeiras permanentes, mas não colabora. Há outros  para conseguir diploma fácil e outros ainda que são atraídos pelo o feitiço dos projetos inclusivos: o lanche, o material didático etc. Mas nunca o verdadeiro objetivo: debruça-se ao conhecimento. E por último, uns poucos, depois da aposentadoria, já não tinha mais nada para fazer à noite em casa, então... Conheci um pai de família ciumento que se matriculou para vigiar a esposa na escola. Ele não precisam estudar de fato! Sua vida profissional já está definida. muito deles até ganham mais que o professor. Por que precisarão respeitar professor?
          As classes da EJA são muito heterogêneas ali está um professor ajustado para trabalhar com a maioria sem o principal objetivo, e a minoria, faz-lho "amassar barro" em nome da uniformização, aprendendo o que já sabe. Uns esperando pelos outros, onde o progresso é proibido.
         É fácil ler esta crônica e apontar o dedo do escárnio para mim, mas digo que com a mesma dureza que me julga será condenado. Quais são minhas condições de trabalho, para esta demanda? O que posso fazer a estas pessoas que desperdiçaram todas as suas oportunidades e agora querem aproveitar as iscas do sistema educacional, facilitando a vida dos que gostam de reduzir o analfabetismo a qualquer custo e fazer bonitas estatísticas? Devemos pagar para trabalhar ou podemos continuar dormindo na paz da inércia enquanto alunos "especiais" nos depreciam? 
Ironia é os "técnicos" da educação transformarem o ensino regular do noturno em Eja e chamar isso de Fortalecimento.
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 01/05/2009
Código do texto: T1569418

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Comentários


29/07/2010 13:07 - thiello
muito bom continue assim....gostei muito do seu conceito de cronica


27/07/2010 20:09 - samila
adoreiii...vcs estao de parabens


01/05/2009 09:21 - Lacuna Coil
Adorei o texto, meu querido Claudeko, tanto como os outros em que você elucida a questão do ensino e de suas deturpações. E como sempre digo, vá em frente. Continue e continue, pois, o ensino precisa de pessoas dedicadas como você, beijão daqui, querido.


01/05/2009 07:43 - Marco Antonio Pereira
Pois é meu amigo professor, isso tudo é um pequenino exemplo de como o ensino em nosso foi jogado no lixo. Bem sei o quanto era importante uma escola pública e quanto a enalteço, pois foi nela que me instruí, vendo hoje a depauperação começar nos lares desfeitos, pelas mazelas econômicas, pela exclusão social, pela precária formação do carater... enfim... ceifam-se oportunidades do cidadão ceifando-lhes o saber e os condenam a viver precariamente, a sonhar com um futuro melhor, sem forças para corrigir o rumo da indignação... Não esmoreça seus esforços, caro mestre, ainda que desanimadora toda essa situação, seus esforços não serão em vão. Abraços Fraternos


01/05/2009 07:18 - Juli Lima
Bom dia! O Sistema cria o caos q a educação vive. Na quarta perguntei para uma de minhas turmas de 9º ano o q eles espravam da escola? E apenas uma aluno ousou responder. Neste momento percebi, q eles não "sabem" o que fazem... Tudo na vida tem q ter um sentido. E frequentar as escola por causa de uma bolsa família, não faz sentido para eles, e por isso a escola, representa, um espaço social (de certa forma seguro), nas cominidades onde a violência, invade as casas. Eu te entendo... Bj poesia




Postar um comentário