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MINHAS PÉROLAS

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O GRITO DA SIRENE (E que os cursos a distância tomem de conta.)




CRÔNICA

O GRITO DA SIRENE (E que os cursos a distância tomem de conta.)


Por Claudeci Ferreira de Andrade


         Cada manhã, o portão de acesso ao colégio era fechado assim que soava o segundo grito da sirene, às 7h10. Era um zunido estridente que ecoava e ressoava morro abaixo. Os ponteiros do relógio da parede não paravam e tinham pressa de marcar segundos, minutos e horas. Os retardatários estavam em perigo e não tinham ilusões quanto a que lhes aconteceriam do lado de fora: iriam assinar advertência no caderninho da coordenadora de turno ou apenas iam “passear”. Faltando ainda cinco minutos, e o professor já devia estar na sala com o diário de classe nos punhos pronto para realizar a chamada, este sentia mais a estridência avassaladora do toque, pois perturbava mais ele que os alunos; pois descarregava 666 decibéis em cima de sua cabela, também aquela desarmonia se estendia até a vizinhança, num raio de quinhentos metros, por ali. Era quase de rachar os tímpanos!
         Por que em quase todas as unidades escolares, a sirene fica o mais próximo possível da sala dos professores? Diante dessa cena, podemos imaginar o compromisso profissional desses atores, cada um em sua função. Que zelo e cuidado é desvelado por uma causa tão nobre? Bem pudera! Mas, não será assim o resto do dia, ontem tive que subir aula ou descer, não sei bem o que fiz, na verdade deixei os alunos assistindo a um filme e, a pedido da organização, fui acudir outra sala. É que sempre falta um ou outro do corpo docente. Se tem relação com o desconforto da sirene? Não sei, só sei que quem saía mais cedo economizava audição.
         Hoje é sábado, e a esta hora, aquele zunido ainda me perturba! Faz-me lembrar o toque de recolher em tempo de perigo, mas também vem como uma subestimação de minha competência, é como se o relógio não fosse suficiente, pois a coordenadora, mesmo depois de segurar o botão por quase um minuto, ainda me manda ir para a sala. Não tenho motivação, por isso me atraso!  O que me conforta sobretudo é prever que o sol está prestes a pôr-se no último momento deste sistema falido de semelhanças militaristas, no qual se fala em "parada pedagógica", "grade curricular", "delegacia de ensino", "estratégia de aprendizagem", "uniforme", "corte de ponto", coordenadora "sagentona" e coisa e tal. Há peregrinos em trânsito na esperança da eficiência, pedindo ao Criador que nos facilite a convivência no ambiente de trabalho, pois o ensinar a quem não quer aprender, em si, já é penoso demais. Os acontecimentos apontam sem duvida alguma para o fim de todas essas coisas. Logo aquele portão, que ainda está lá, separando os (promis)sores, fechar-se-á para sempre, e que os cursos a distância tomem de conta.
         Existiria algum professor, ou aluno, ou alguém da comunidade escolar cujos pulsos não batessem apressados ao antever os estranhos acontecimentos que se revelavam após o grito desconfortável daquela sirene? Ainda mais quando acionada por um aluno irresponsável, apenas brincando com coisa séria ou por outro qualquer funcionário para mostrar serviço! Porém, a solução está vindo. Ouvimos os passos de um grande momento que se aproxima: não a "zorra total", mas o caos total. 
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 06/05/2009
Código do texto: T1578365

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